Durante os períodos de colonização e escravidão, uma das estratégias mais insidiosas utilizadas pelos colonizadores foi o aliciamento de uma parte da população negra para servir aos seus próprios interesses. Em muitos casos, os brancos, através do poder econômico e político, conseguiram dividir e enfraquecer a unidade do povo negro, manipulando as relações de poder dentro das próprias comunidades africanas e afrodescendentes. Ao usar a riqueza, o dinheiro e o status, colonizadores e opressores brancos criaram uma classe de “negros colaboracionistas” que ajudaram a perpetuar a exploração e a violência contra seus próprios irmãos e irmãs.
A Estratégia de Divisão: O Aliciamento e a Subordinação
O racismo estrutural imposto pelos colonizadores não se limitava apenas à escravização dos negros, mas também à criação de divisões internas entre eles. Durante a escravidão, muitos africanos foram cooptados para atuar como capatazes, chefes de facções ou intermediários entre os colonizadores e os escravizados. Esses indivíduos eram conhecidos como “negros do colonialismo”, e frequentemente recebiam privilégios, salários ou até terras como recompensa pela colaboração com o sistema opressor.
Os colonizadores usaram esses negros aliciados como uma forma de vigilância e controle, dividindo a população negra em grupos favoráveis e desfavoráveis ao sistema colonial. Em vez de lutar contra o sistema de exploração, muitos negros se viam em uma posição de subordinação em relação aos seus próprios irmãos e irmãs, sendo incentivados a reprimir, vigiar e até denunciar aqueles que resistiam. Esse jogo de interesses e privilégio criado pelos colonizadores foi fundamental para garantir que a resistência não se consolidasse e para enfraquecer qualquer possibilidade de unidade entre os negros.
Além disso, o racismo internalizado, alimentado pela superioridade branca, também foi crucial para que a divisão ocorresse. Muitos dos negros aliciados acreditavam que, ao se aliar aos brancos ou aos interesses dos colonizadores, estariam ascendente socialmente, conquistando privilégios que antes não estavam ao seu alcance. Essa dinâmica gerou uma cultura de traição e desconfiança, onde a luta pela liberdade e a solidariedade entre os negros muitas vezes eram minadas pela ganância e pelo desejo de status.
Reflexão sobre o Racismo Intraétnico
O fenômeno do aliciamento, e como ele contribuiu para a divisão entre os negros, não desapareceu com o fim da escravidão. Durante a colonização, e até mesmo nos tempos pós-coloniais, o racismo intraétnico se perpetuou, alimentado por um sistema que ainda favorecia aqueles que tinham acesso ao poder econômico e político. Mesmo dentro das comunidades negras, o desejo de ascensão social e a busca por poder geraram hierarquias e divisões baseadas na cor da pele, classe social e origem.
O racismo entre pretos, muitas vezes, é um reflexo dessa história de opressão interna. A valorização da pele clara sobre a pele escura, o culto à “negritude aceitável” e a marginalização de práticas culturais africanas mais visíveis são exemplos claros de como as sementes do colonialismo continuam a afetar a maneira como nos vemos e nos relacionamos dentro das próprias comunidades negras. O racismo intraétnico perpetua a ideia de que algumas formas de negritude são mais “aceitáveis” ou “superiores” que outras, criando um ciclo de auto-negação e exclusão.
Além disso, essa divisão cria um terreno fértil para a perpetuação de estigmas e discriminação. O preconceito entre negros pode se manifestar de diferentes formas, como discriminação por classe social, pela cor da pele, pela origem geográfica ou até mesmo pela percepção de que certos comportamentos, estilos de vida ou até mesmo valores culturais são mais “elevados” do que outros. Essa hierarquia racial dentro da comunidade negra é uma herança direta da estratégia colonial de aliciamento e manipulação.
Superando a Divisão e Construindo a Unidade
É crucial que, enquanto sociedade, nos voltemos para a reflexão sobre essas dinâmicas de divisão e exclusão que ainda permeiam nossas relações. O racismo intraétnico é um reflexo de um sistema que nos ensinou a nos ver uns aos outros através das lentes da opressão, das diferenças de classe e da cor da pele. Contudo, a luta pela igualdade e pela dignidade não pode ser feita com divisões internas. Precisamos construir uma unidade verdadeira, onde a solidariedade e o apoio mútuo entre negros de todas as origens, tonalidades de pele e classes sociais sejam a base da nossa força coletiva.
Superar o racismo entre pretos exige um processo de autoaceitação e de valorização da nossa diversidade. Precisamos desconstruir as hierarquias raciais internalizadas e entender que, independentemente de nossa aparência ou classe social, todos somos descendentes de um povo resiliente e digno. Só quando deixarmos de lado as diferenças e nos unirmos em torno de uma luta comum contra o racismo sistêmico é que poderemos verdadeiramente transformar a nossa realidade e construir uma sociedade mais justa e igualitária.
DANIYYEL DE JESUS