A história da resistência dos negros é uma história marcada pela luta incessante para ocupar espaços que sempre lhes foram negados. Durante séculos, as estruturas de poder, cultura e economia foram construídas para excluir a presença negra e manter um status quo de opressão e subordinação. No entanto, a resistência dos negros não se limitou apenas à sobrevivência. Ela sempre esteve, e continua a estar, na tentativa de tomar posse dos espaços que, por direito, lhes pertencem, e que têm sido dominados por sistemas coloniais, racistas e desiguais.
A luta por espaço, seja no mercado de trabalho, na política, nas artes ou na academia, continua sendo uma das maiores batalhas travadas pela comunidade negra. Em muitas situações, negros são “inclusos” em espaços de destaque ou tomam posição em lugares que historicamente foram fechados a eles, mas muitas vezes essa inclusão não significa, de fato, poder ou representação verdadeira. Muitas vezes, essa presença é apenas simbólica, um “decorativo” para que uma organização ou instituição se apresente como inclusiva, sem que haja mudanças substanciais nas dinâmicas de poder. Um preto no meio dos brancos não é suficiente se, por trás da representação, a estrutura de poder continua a funcionar da mesma forma, mantendo as mesmas desigualdades e exclusões.
A inclusão superficial, muitas vezes, é uma estratégia para “parecer” progressista, sem que se faça o esforço necessário para mudar a forma como a sociedade opera, ou para garantir que as vozes negras sejam ouvidas e respeitadas. Quando um negro é colocado em um cargo de destaque, mas não tem poder real para fazer mudanças, ou quando sua presença é usada para justificar uma política de diversidade vazia, essa inclusão se torna apenas um espetáculo para o “inglês ver”, ou seja, uma fachada de igualdade que não reflete a realidade do que está acontecendo nas estruturas internas. Nesse cenário, os negros são apenas utilizados para dar uma aparência de progresso, sem que haja um compromisso genuíno com a equidade.
O que é necessário não é simplesmente ver um negro no meio dos brancos, seja como empregado, político ou artista. O que devemos buscar, e o que a luta negra exige, é igualdade e equidade em todos os espaços e em todos os aspectos da vida social, econômica e política. A luta pela tomada de posse desses espaços vai além da presença física de um negro em um espaço de poder. Trata-se de garantir que a voz e a experiência do negro não sejam apenas ouvidas, mas realmente consideradas, respeitadas e incorporadas nas decisões. Equidade significa dar a cada indivíduo o que é necessário para que ele tenha a mesma oportunidade de prosperar. E isso implica não apenas uma presença simbólica, mas a criação de condições reais para que os negros tenham acesso a todos os direitos, recursos e oportunidades de forma justa e plena.
A resistência está na recusa à representação vazia. Não queremos apenas ser vistos em posições de prestígio, queremos ser tratados com dignidade, reconhecidos em nossa totalidade e valorizados pelo que somos. Queremos mais do que a representatividade superficial: queremos transformar os espaços que sempre nos foram negados em locais onde as vozes negras sejam verdadeiramente centrais e onde nossa participação não seja apenas uma jogada política, mas uma expressão genuína de mudança.
É fundamental que a resistência na tomada de posse dos espaços seja acompanhada por ações que criem um ambiente de igualdade, onde os negros não precisem mais lutar para se ver refletidos na sociedade de forma justa. Isso significa garantir que as políticas públicas, as instituições e as organizações não apenas aceitem, mas acolham e promovam a diversidade de maneira efetiva, sem reduzi-la a um simples “checklist”. Para que possamos realmente ocupar os espaços que nos pertencem, é necessário que, ao lado da visibilidade, venham a mudança das estruturas de poder que por tanto tempo nos excluíram.
A verdadeira equidade requer a destruição das barreiras sistêmicas e a construção de um sistema que considere a história, a cultura e a dignidade dos negros como fundamentais para o desenvolvimento coletivo. Não podemos mais aceitar um mundo onde a luta pela igualdade se resume a ver um negro em meio aos brancos, mas sim onde a sociedade como um todo abrace a verdadeira essência da equidade, proporcionando a todos os seus membros as mesmas oportunidades e respeito.
DANIYYEL DE JESUS