A escravidão pode ter acabado no papel, mas as suas marcas ainda permanecem vivas na alma do povo africano. Durante séculos, nossos antepassados foram arrancados das suas terras, brutalizados, desumanizados e tratados como mercadorias. Muitos morreram sem terem a chance de lutar pela sua liberdade, deixando para trás uma herança de dor e sofrimento. Suas almas, atribuladas pela injustiça, ainda ecoam através das gerações, e esse passado sombrio reflete-se na forma como muitos negros veem a si mesmos até hoje.
O colonialismo e a escravatura não apenas exploraram fisicamente o povo africano, mas também deixaram uma ferida profunda na identidade negra. Fomos ensinados a acreditar que éramos inferiores, que nossas culturas eram atrasadas, que nossos traços, nossos cabelos, nossas línguas e nossas crenças eram algo a ser apagado ou modificado para se encaixar em um padrão imposto. Esse processo gerou uma espécie de prisão mental que, até os dias de hoje, ainda mantém muitos de nós acorrentados.
E essa escravidão da mente é talvez a mais difícil de quebrar. Pois não se trata apenas do preconceito que vem de fora, mas também do preconceito que foi plantado dentro de nós. Muitas pessoas negras carregam sentimentos de autodepreciação, sentem que não são boas o suficiente, que precisam provar constantemente seu valor. Outras, por revolta, alimentam um ódio que as impede de encontrar paz.
Mas a verdadeira libertação não virá dos outros. Ela precisa começar dentro de nós. Para quebrar as correntes que ainda nos prendem, precisamos resgatar o orgulho da nossa história, reconectar-nos com a força dos nossos ancestrais e entender que a nossa identidade não é definida por um passado de opressão, mas por uma herança de resistência.
A libertação da mente negra é um processo de cura. É olhar-se no espelho e enxergar beleza na própria pele, é falar a própria língua com orgulho, é respeitar a própria cultura sem medo do julgamento. É entender que a revolta pode ser transformada em força, e que o conhecimento da nossa verdadeira história é a chave para quebrar qualquer corrente invisível que ainda nos prende.
A luta contra o racismo não é só externa. Ela começa dentro de cada um de nós. Só quando nos libertarmos internamente poderemos, de fato, viver a plenitude da nossa existência como povo.
DANIYYEL DE JESUS