A África é o continente-mãe da humanidade, e dentro dela, a Etiópia ocupa um papel central na nossa origem. Estudos arqueológicos, fósseis e análises genéticas apontam a África Oriental como o berço dos primeiros seres humanos modernos (Homo sapiens), e a Etiópia, em particular, abriga algumas das descobertas mais importantes sobre os nossos antepassados. No entanto, ao longo da história, a contribuição africana para a civilização tem sido sistematicamente apagada ou minimizada, como parte de um esforço contínuo para desassociar a negritude da ideia de progresso e sofisticação.
A Origem da Humanidade e os Primeiros Humanos na Terra
Os fósseis mais antigos de Homo sapiens foram encontrados na Etiópia, provando que os primeiros humanos anatomicamente modernos surgiram ali há cerca de 300.000 anos. Uma das descobertas mais famosas foi a de “Lucy”, um fóssil de 3,2 milhões de anos, pertencente à espécie Australopithecus afarensis, encontrado na região de Afar, na Etiópia, em 1974. Lucy representa um dos primeiros ancestrais diretos dos humanos modernos e fornece evidências de que a marcha bípede, uma característica essencial da evolução humana, começou na África.
Outros fósseis importantes incluem os restos mortais de Homo sapiens idaltu, descobertos em Herto, na Etiópia, datados de cerca de 160.000 anos atrás. Esses achados mostram que a Etiópia não apenas abrigou os primeiros humanos modernos, mas também foi um dos principais centros de sua dispersão pelo mundo.
Características Físicas dos Primeiros Humanos
Os primeiros Homo sapiens que habitaram a Terra tinham características nitidamente africanas. As evidências apontam para indivíduos de pele escura, o que é confirmado pela biologia evolutiva: a melanina, o pigmento responsável pela cor da pele, surgiu como uma proteção contra os fortes raios ultravioleta da região equatorial. Dessa forma, os primeiros humanos tinham pele negra, nariz largo e cabelos crespos, características que predominavam antes das adaptações a diferentes climas à medida que os humanos migravam para outras partes do mundo.
Além disso, análises genéticas demonstram que os africanos possuem a maior diversidade genética entre todos os povos, evidenciando que todos os outros grupos humanos descendem de populações africanas. Esse fato desmonta a narrativa racista de que negros são inferiores ou atrasados, já que, na realidade, a África representa a base da diversidade humana.
A Localização Geográfica e a Importância da Etiópia
A Etiópia ocupa uma posição estratégica no Chifre da África, cercada pelo Sudão, Eritreia, Djibouti, Somália e Quênia. A presença do Grande Vale do Rift, uma das formações geológicas mais importantes do mundo, torna o país uma região crucial para a compreensão da evolução humana. Foi ali, ao longo dos séculos, que diferentes espécies humanas evoluíram e se espalharam pelo continente e pelo mundo.
Além do seu papel como berço da humanidade, a Etiópia também é conhecida por sua civilização avançada. Foi um dos primeiros reinos africanos a adotar o cristianismo (no século IV) e manteve uma identidade independente durante séculos, resistindo à colonização europeia – algo que poucos países africanos conseguiram.
O Apagamento da História Negra e a Negação da Origem Africana
Apesar das evidências científicas esmagadoras que apontam a África como o local de origem da humanidade, a história negra tem sido sistematicamente apagada e distorcida. Durante séculos, a narrativa eurocêntrica dominou os livros de história, promovendo a falsa ideia de que o desenvolvimento humano e a civilização surgiram exclusivamente na Europa e no Oriente Médio.
Este apagamento acontece de diversas formas:
1. Desassociação da negritude da história da humanidade: Muitas representações dos primeiros humanos em museus e livros didáticos os mostram com características eurocêntricas, ignorando as evidências de que os primeiros seres humanos eram negros.
2. Minimização da contribuição africana para a civilização: A África é retratada frequentemente como um continente “primitivo”, ignorando o fato de que ali existiram civilizações avançadas como o Reino de Axum (na atual Etiópia), o Império do Mali e a Grande Zimbábue.
3. Apropriação cultural e redefinição da identidade dos povos africanos: O Egito Antigo, uma das civilizações mais avançadas da história, é frequentemente retratado como “não africano”, como se os faraós não fossem negros.
4. Falsificação histórica: Muitos estudos acadêmicos antigos tentaram desqualificar a presença negra em grandes civilizações, mesmo quando as evidências eram claras.
Esse apagamento não é acidental. Ele faz parte de uma estratégia maior de desumanização e inferiorização dos povos africanos, sustentando as estruturas de dominação colonial e racista. Se reconhecermos que toda a humanidade tem raízes africanas, temos que admitir que a África não é um continente inferior, mas sim o berço da ciência, da arte, da filosofia e da própria vida humana.
Conclusão: Reescrevendo Nossa História
A Etiópia, como o verdadeiro berço da humanidade, é a prova viva de que os primeiros seres humanos eram negros e que a história da civilização começou no continente africano. No entanto, a negritude foi historicamente apagada e desvalorizada para reforçar narrativas racistas.
Cabe a nós recuperar essa história, reivindicar o nosso lugar e afirmar que a contribuição africana para o mundo vai muito além da escravidão e do sofrimento. A África é a origem da humanidade, e sua história é a história de todos nós.
DANIYYEL DE JESUS
Cresci cercado por pessoas que se pareciam comigo, ou pelo menos era o que eu pensava. No meu ambiente familiar, predominavam os mulatos, pessoas negras de pele mais clara que a minha. Mas foi dentro desse espaço, entre aqueles que deveriam ser os meus, que aprendi cedo o peso da rejeição.
As palavras vinham afiadas como lâminas: “preto de merda”, “cabelo duro”, “narigudo ”. Cada insulto, cada riso de escárnio, cada olhar de nojo era como uma marca invisível cravada na minha pele. E não foram só palavras. Já fui abusado sexualmente (durante anos, dentro de casa). Já cuspiram em mim. Já me empurraram contra muros. Já fui espancado até perder os sentidos porque um mulato, um preto mais claro do que eu, sentia-se superior. A cor da pele, uma mera variação de melanina, transformava-se numa hierarquia cruel dentro da própria comunidade (tudo isto aconteceu entre os meus 5 aos 10anos).
Foi assim que aprendi a odiar o espelho.
Durante anos, o reflexo devolvia-me um rosto que eu não conseguia aceitar. O cabelo crespo parecia um erro. O nariz largo, um defeito. Os olhos grandes, um estigma. O problema não era eu, mas tudo ao meu redor dizia o contrário. Vivia à margem, tentando entender por que a minha existência causava tanto incômodo até mesmo entre os meus.
O tempo passou, mas as feridas ficaram. Carreguei comigo essa dor para onde quer que fosse. Quando cheguei a Portugal, pensava que talvez ali encontrasse uma trégua, um novo começo. Mas foi um engano.
Portugal não me acolheu, apenas reativou os meus traumas. O racismo aqui tinha um novo rosto, mais sofisticado, mais institucional, mas igualmente cruel. Os olhares de desconfiança, os seguranças a seguir-me em lojas, as portas que se fechavam antes mesmo de eu bater. E, acima de tudo, os gatilhos. Todos os abusos do passado despertaram como demónios adormecidos. Era como se o menino ferido que eu tentava deixar para trás gritasse dentro de mim, lembrando-me de tudo o que eu tinha sofrido.
Mas desta vez, algo foi diferente.
Eu já não era aquele menino indefeso, incapaz de responder, de lutar. Portugal forçou-me a olhar de frente para os meus demónios, um por um. Eu os encarei, os questionei, os expulsei. Demorou, doeu, mas, finalmente, aprendi a me ver com outros olhos. Os traços que eu aprendi a odiar tornaram-se minha força. O cabelo a minha coroa. O nariz que eu tentava esconder passou a ser símbolo de orgulho.
Aceitar-me como negro foi um processo profundo e transformador. Durante anos, tentei negar partes de mim, acreditando que os traços da minha negritude eram um peso, algo que me tornava menos digno. Mas a verdadeira liberdade veio quando entendi que a minha identidade não era um fardo, e sim uma força. O problema nunca esteve na cor da minha pele, mas na forma como o mundo insiste em nos diminuir.
Ao me reconhecer como negro, abracei as minhas raízes e a história do meu povo. Passei a ver-me como um ser humano digno de viver, de ocupar espaços, de ser respeitado e honrado. E no meio dessa jornada, algo me deu ainda mais esperança: ver os nossos a ascender, a ocupar lugares que sempre nos foram negados.
Hoje, vemos juízes negros, empresários negros, cientistas, artistas, líderes que rompem barreiras e provam que pertencemos a qualquer lugar que queiramos estar. Cada vitória de um negro é uma rachadura no sistema que tentou nos apagar por séculos. Cada um que se ergue leva consigo muitos outros.
Isso enche-me de orgulho e me faz acreditar que, apesar das batalhas, estamos a mudar a narrativa. Estamos a reescrever a nossa história com as nossas próprias mãos. Ser negro não é um erro, nunca foi. É um símbolo de resistência, de poder e de grandeza. E eu existo sem pedir permissão.
Hoje, quando olho no espelho, já não vejo um menino quebrado. Vejo um homem que sobreviveu. Vejo um PRETO LIVRE.
DANIYYEL DE JESUS
No dia 19 de janeiro de 2020, um episódio revoltante aconteceu no Casal de São Brás, Amadora. Cláudia Simões, uma mulher negra de 42 anos, foi brutalmente agredida por um agente da PSP após um desentendimento envolvendo o passe de transporte da sua filha de 8 anos. Um caso simples, que poderia ter sido resolvido com diálogo e bom senso, rapidamente escalou para um ato de violência desproporcional, deixando marcas físicas e emocionais na vítima e levantando sérias questões sobre o racismo estrutural nas forças de segurança em Portugal.
O Que Aconteceu?
Cláudia estava a regressar a casa com a filha quando o motorista do autocarro questionou a menina sobre o seu passe. Como a criança não tinha o título de transporte consigo naquele momento, a mãe tentou interceder, explicando que a menina possuía o passe, mas simplesmente não o levava naquele dia.
O motorista, em vez de lidar com a situação de forma razoável, decidiu chamar a polícia. Quando o agente Carlos Canha chegou, o que deveria ser apenas uma verificação de rotina transformou-se num ato de brutalidade policial. Testemunhas afirmam que Cláudia foi abordada de forma agressiva e, ao questionar o comportamento do agente, foi empurrada e imobilizada à força.
“Aquilo foi chocante. Ele jogou-a ao chão como se estivesse a prender um criminoso perigoso. Ela gritava que não estava a resistir, mas ele continuava a agredi-la”, relatou uma testemunha que assistiu à cena.
Cláudia foi levada para a esquadra, onde sofreu ainda mais agressões. Fotos tiradas após a sua libertação mostram o seu rosto inchado, hematomas e ferimentos visíveis. No hospital, os médicos confirmaram que ela sofreu várias lesões devido ao uso excessivo da força.
A Justiça Falha Novamente
O caso seguiu para tribunal, e, como já era esperado, o desfecho revelou-se um reflexo da impunidade habitual nestes casos. Cláudia Simões foi condenada a oito meses de prisão com pena suspensa pelo crime de ofensa à integridade física qualificada, devido a uma alegada mordida no agente.
Já o polícia, Carlos Canha, que a agrediu violentamente, foi absolvido das acusações relacionadas com Cláudia, mas acabou por ser condenado a três anos de prisão com pena suspensa por outros crimes cometidos contra dois cidadãos em diferentes ocasiões. Ou seja, mesmo com provas claras da violência policial, a vítima negra foi criminalizada, enquanto o agente saiu praticamente ileso.
O Padrão de Racismo e o Uso da Força Desnecessária
Casos como o de Cláudia Simões são um exemplo gritante de como o racismo opera dentro das instituições portuguesas. A polícia, que deveria servir e proteger, age com desproporcionalidade contra cidadãos negros, principalmente quando se trata de conflitos menores, facilmente resolvíveis pelo diálogo.
Se Cláudia fosse uma mulher branca de classe média, será que teria sido tratada da mesma forma? Será que um simples desentendimento sobre um passe de transporte resultaria em uma detenção brutal? O que impede a polícia de adotar um comportamento razoável quando lida com cidadãos negros?
Essas perguntas são incômodas, mas essenciais para entender por que a violência policial contra negros é normalizada em Portugal. O sistema de justiça, que deveria atuar de forma imparcial, reforça essa desigualdade ao proteger os agressores e punir as vítimas.
Reflexão Final: Até Quando Vamos Aceitar?
O caso Cláudia Simões não é isolado. Ele se insere num contexto maior de violência policial e racismo institucional em Portugal. A falta de responsabilização de agentes que abusam do poder perpetua um ciclo de opressão contra as comunidades negras e imigrantes.
A solução passa por reformas estruturais na polícia, maior transparência nos processos judiciais e uma mudança cultural que elimine a ideia de que certas vidas valem menos. Enquanto a justiça continuar a falhar, enquanto cidadãos negros forem tratados como criminosos apenas por existirem, Portugal continuará a ser um país onde a cor da pele define quem merece respeito e quem pode ser descartado pelo sistema.
DANIYYEL DE JESUS