A história de Marcelino da Mata é uma das mais emblemáticas e controversas da Guerra Colonial Portuguesa. Nascido na Guiné em 7 de maio de 1940, ele se tornaria o militar mais condecorado da história de Portugal, servindo ao Exército Português durante o conflito contra os movimentos de libertação africanos. Para alguns, foi um herói, um soldado excepcionalmente habilidoso e leal a Portugal. Para outros, foi um símbolo da repressão colonial, envolvido em massacres e crimes de guerra. A sua trajetória reflete as profundas contradições do colonialismo, da guerra e das identidades divididas entre metrópole e colônia.
Origens e Ascensão no Exército Português
Marcelino da Mata nasceu em uma Guiné ainda sob domínio português. Diferente da maioria dos africanos na colônia, ele integrou-se ao Exército Português ainda jovem, destacando-se rapidamente por sua bravura e habilidades militares. Em uma época em que a grande maioria dos oficiais e soldados do Exército Português eram brancos e nascidos na metrópole, Marcelino se tornou uma exceção, conseguindo galgar posições de destaque.
Com o início da Guerra Colonial na Guiné-Bissau, em 1963, Marcelino da Mata foi incorporado às tropas de elite portuguesas, participando de operações altamente estratégicas contra o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), o principal movimento de libertação da colônia.
Ele fez parte dos temidos Comandos Africanos, uma unidade especial conhecida pela sua agressividade e eficiência no combate, sendo enviado para missões que exigiam alto nível de especialização, sobretudo ataques a bases inimigas, sabotagens e emboscadas. A sua capacidade em operar em terrenos hostis, aliada ao conhecimento da geografia e cultura local, fez dele um soldado extremamente eficaz na estratégia portuguesa de “africanização da guerra”, onde Portugal recrutava africanos para lutar contra os próprios movimentos de libertação.
As Operações Militares e as Acusações de Violência
Ao longo de mais de uma década de combate, Marcelino da Mata teria participado de centenas de operações. Algumas dessas ações foram altamente eficazes do ponto de vista militar, resultando na destruição de infraestruturas do PAIGC e na eliminação de líderes guerrilheiros. No entanto, também foram marcadas por episódios de extrema violência, com relatos de massacres contra populações civis e atos que hoje seriam considerados crimes de guerra.
Um dos casos mais emblemáticos que envolvem o seu nome é o do ataque a Conacri, capital da Guiné, em 1970. Nesta operação, as tropas portuguesas realizaram uma incursão ao território soberano da Guiné-Conacri, que apoiava o PAIGC. O ataque resultou na morte de vários membros da resistência, mas também em civis e na destruição de infraestruturas. Este evento aumentou a tensão internacional sobre o papel de Portugal na África e fez com que Marcelino da Mata fosse visto como um dos agentes mais brutais do colonialismo português.
Muitos ex-combatentes do PAIGC acusam-no de práticas de tortura e execuções sumárias, relatos que foram intensificados após a independência da Guiné-Bissau. Apesar disso, nunca houve um julgamento formal sobre essas acusações, e Marcelino sempre negou envolvimento direto em atos de violência contra civis. Para seus apoiadores, essas denúncias são fruto de propaganda política dos movimentos de libertação.
O Fim do Império Português e o Exílio em Portugal
Com a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, Portugal iniciou um processo acelerado de descolonização. Em pouco tempo, as colônias africanas conquistaram a independência, incluindo a Guiné-Bissau. Para muitos soldados africanos que haviam lutado ao lado de Portugal, a vitória dos movimentos de libertação significava risco iminente de perseguição e retaliação.
Marcelino da Mata foi um dos milhares de soldados africanos leais ao Exército Português que tiveram que fugir para Portugal. Ao chegar à metrópole, no entanto, ele não foi recebido como um herói. O novo governo pós-revolução via sua figura com desconfiança, especialmente por seu envolvimento em operações controversas. Nos anos seguintes, ele foi marginalizado dentro das forças armadas e viveu como um símbolo da antiga ordem colonial, sendo mais reconhecido entre círculos militares e nacionalistas portugueses.
Nos anos 80 e 90, tornou-se uma voz ativa na comunidade de ex-combatentes, criticando a forma como Portugal lidou com os africanos que lutaram ao seu lado. Defendia que Portugal havia abandonado esses soldados e que a descolonização foi feita de maneira precipitada e irresponsável.
O Legado de Marcelino da Mata: Herói ou Carrasco?
Marcelino da Mata faleceu em 2021, aos 80 anos, sem nunca ter sido julgado formalmente por nenhuma das acusações que recaíam sobre ele. Sua morte reacendeu debates sobre o papel de figuras como ele na história do colonialismo português.
Para alguns, Marcelino da Mata foi um herói militar, um combatente exemplar que dedicou sua vida ao serviço de Portugal. Para outros, foi um agente da repressão colonial, símbolo da brutalidade de um regime que insistia em manter suas colônias através da força.
Seu legado continua a dividir opiniões, refletindo a própria dificuldade de Portugal em lidar com seu passado colonial. Enquanto setores nacionalistas o celebram como um exemplo de bravura e lealdade, outros o veem como um lembrete das injustiças e violências cometidas durante o domínio português na África.
A história de Marcelino da Mata não pode ser contada de forma simplista. Ele foi ao mesmo tempo um produto do colonialismo e um de seus agentes mais eficazes, um homem que viveu entre duas identidades e que, até o fim de sua vida, carregou consigo as marcas de um império que se recusava a aceitar seu próprio fim.
DANIYYEL DE JESUS