A África do Sul é um país marcado por um dos regimes mais brutais de segregação racial da história moderna: o Apartheid. Oficialmente instaurado em 1948 e derrubado em 1994, esse sistema não apenas institucionalizou a violência contra a população negra, mas também serviu como uma máquina de expropriação, retirando terras, recursos e direitos dos sul-africanos pretos. Mas a questão que precisa ser feita é: o Apartheid realmente acabou?
Se olharmos além dos discursos políticos e analisarmos as condições econômicas, a posse de terras e a violência policial no país, perceberemos que o poder colonialista nunca foi totalmente desmantelado. O controle das terras mais férteis e lucrativas permanece com a minoria branca, enquanto a população negra ainda sofre com pobreza extrema, violência estrutural e um sistema econômico que continua a favorecer os antigos opressores. E, no centro dessa luta, a figura de Nelson Mandela se ergue como um símbolo de resistência, mas também como um líder cujas concessões ao poder branco geram críticas até hoje.
A TERRA COMO ARMA DE OPRESSÃO: O APARTHEID FOI ALÉM DA SEGREGAÇÃO RACIAL
Desde a chegada dos primeiros colonizadores holandeses em 1652, a posse da terra sempre foi um dos principais meios de dominação na África do Sul. O território foi progressivamente tomado dos povos nativos através de violência, tratados fraudulentos e legislação racista. No século XX, o Apartheid institucionalizou essa expropriação, consolidando o poder econômico da minoria branca.
As principais leis que garantiram essa dominação foram:
• Natives Land Act (1913): Proibia os negros de possuírem ou arrendarem terras fora das áreas designadas, que representavam apenas 7% do território nacional.
• Group Areas Act (1950): Forçou a remoção de milhares de famílias negras de áreas urbanas economicamente estratégicas, deslocando-as para periferias sem infraestrutura.
• Bantustões: Criaram “territórios autônomos” para negros, que na realidade eram reservas de pobreza, sem recursos naturais ou acesso a empregos.
O resultado? Em 1994, quando Nelson Mandela assumiu a presidência, menos de 15% das terras agrícolas estavam nas mãos de negros, que representavam 80% da população.
A ILUSÃO DA LIBERTAÇÃO: NELSON MANDELA E AS NEGOCIAÇÕES COM O PODER BRANCO
Nelson Mandela é reverenciado mundialmente como o homem que derrotou o Apartheid. No entanto, seu legado é complexo e controverso. Durante as negociações para o fim do regime, o governo do Partido Nacional (PN), dominado pelos brancos, impôs uma série de condições para garantir que a estrutura econômica do país permanecesse intacta.
Entre as concessões mais criticadas feitas pelo Congresso Nacional Africano (ANC) de Mandela estão:
• Manutenção da propriedade privada das terras expropriadas: A redistribuição de terras foi convertida em um programa de “compra voluntária”, o que significava que os fazendeiros brancos seriam pagos para devolver terras que foram roubadas por seus ancestrais.
• Adoção de um modelo neoliberal: O novo governo negro não implementou uma reforma agrária radical, mantendo a economia sul-africana dominada pelo setor privado, que já era controlado pelos brancos.
Mandela optou por uma transição pacífica, acreditando que a reconciliação seria o caminho mais eficaz para a construção de um novo país. Mas essa escolha significou que os pilares do Apartheid econômico permaneceram inalterados.
Hoje, muitos ativistas sul-africanos afirmam que, embora Mandela tenha sido essencial para o fim das leis racistas, ele não conseguiu garantir a verdadeira independência econômica para os negros sul-africanos.
VIOLÊNCIA POLICIAL E RACISMO ESTRUTURAL: O NOVO APARTHEID
Um dos traços mais marcantes do Apartheid foi o uso da violência policial como ferramenta de repressão. Manifestações contra o governo eram reprimidas com brutalidade, e a polícia funcionava como um exército privado do regime branco.
Mas se o Apartheid acabou, por que a violência policial contra negros continua tão intensa na África do Sul?
Após 1994, o governo democrático não desmantelou a estrutura da polícia sul-africana. O mesmo aparato repressivo que servia aos colonizadores continuou operando com as mesmas práticas brutais, só que agora sob um governo negro. O massacre de Marikana, em 2012, é um exemplo claro disso. Nesse episódio, 34 mineiros negros foram assassinados pela polícia enquanto protestavam por melhores condições de trabalho em uma mina de platina controlada por corporações brancas.
Além disso, a desigualdade social extrema cria um ambiente de criminalidade elevada, o que dá justificativa para que a polícia continue a tratar a população negra como inimiga do Estado, exatamente como fazia no período do Apartheid.
ORANIA: O REFÚGIO DO APARTHEID QUE AINDA EXISTE
Se alguém duvida que o Apartheid ainda persiste, basta olhar para Orania, uma cidade localizada na província do Cabo Setentrional. Criada em 1991, essa comunidade só permite a presença de brancos e mantém sua própria moeda (o “Ora”).
Os habitantes de Orania afirmam que a cidade é um exemplo de “autossuficiência” afrikaner, mas, na prática, é um enclave racista onde a segregação ainda ocorre de forma explícita. Enquanto Orania prospera com recursos e terras férteis, comunidades negras ao redor continuam presas na pobreza extrema.
O governo sul-africano nunca tomou medidas concretas para acabar com Orania, mostrando como o país ainda tolera resquícios do Apartheid.
A LUTA PELA REPARAÇÃO: A REDISTRIBUIÇÃO DE TERRAS COMO SOLUÇÃO?
Desde 2018, o governo sul-africano debate a expropriação de terras sem compensação, ou seja, a devolução das terras roubadas sem indenizar os descendentes de colonizadores.
A proposta gerou forte resistência da elite branca e da comunidade internacional. Governos ocidentais, como os Estados Unidos e o Reino Unido, ameaçaram cortar investimentos na África do Sul, usando o medo de um “colapso econômico” como justificativa para manter o status quo.
O exemplo do Zimbábue, onde uma redistribuição de terras mal planejada levou ao colapso da economia, é frequentemente citado como argumento contra a expropriação. Mas o que muitas vezes se ignora é que sem justiça fundiária, a África do Sul nunca será verdadeiramente livre.
CONCLUSÃO: O APARTHEID FOI UMA ESTRATÉGIA, NÃO UM SIMPLES REGIME
O Apartheid não foi apenas um sistema político segregacionista; ele foi um projeto de dominação econômica que continua a beneficiar os descendentes dos colonizadores até hoje.
A África do Sul pode ter um governo negro, mas o verdadeiro poder econômico ainda está concentrado nas mãos da elite branca. As terras ainda pertencem a quem as roubou.
A luta da população negra sul-africana agora não é apenas por direitos civis, mas por justiça econômica e reparação histórica. E essa luta não se limita à África do Sul – ela reflete um problema global de neocolonialismo, racismo estrutural e exploração contínua da África.
Se o mundo realmente quer justiça, não basta dizer que o Apartheid acabou – é preciso garantir que ele não continue existindo na prática.
DANIYYEL DE JESUS