Nos últimos anos, Portugal tem sido apontado como um dos destinos mais procurados por imigrantes, especialmente brasileiros, africanos e pessoas de outras ex-colônias. O país, conhecido por sua hospitalidade e clima favorável, tem se tornado uma escolha para aqueles que buscam melhores condições de vida, oportunidades profissionais e um ambiente mais seguro. No entanto, por trás da fachada de receptividade e diversidade, cresce uma realidade preocupante: o aumento significativo do discurso de ódio contra imigrantes.
Dados Alarmantes: O Que a Pesquisa Revela
Uma pesquisa recente da Casa do Brasil de Lisboa revelou que 79,8% dos imigrantes entrevistados já foram vítimas de discursos de ódio em Portugal. O dado mais alarmante é que, dentre esses, 83,6% são brasileiros, o que aponta para uma xenofobia direcionada especificamente a essa comunidade. Mas essa violência verbal e simbólica não afeta apenas brasileiros. Imigrantes africanos, asiáticos e latino-americanos também relatam experiências de preconceito, exclusão e discriminação.
Os locais onde essas manifestações são mais comuns foram identificados na pesquisa:
✔ Internet e redes sociais: espaço onde discursos de ódio se propagam rapidamente, muitas vezes sob o manto do anonimato.
✔ Serviços públicos: relatos de tratamento diferenciado, descaso e até agressões verbais em instituições de saúde, segurança e atendimento ao cidadão.
✔ Ambiente de trabalho: barreiras na contratação e no crescimento profissional devido a estereótipos racistas e xenofóbicos.
Além disso, frases como “volta para a tua terra”, “estão a roubar os nossos empregos”, e outras expressões depreciativas são recorrentes nas ruas, reforçando a exclusão social desses imigrantes.
O Impacto na Vida dos Imigrantes
O discurso de ódio não é apenas um problema moral ou ético – ele tem efeitos concretos na vida dos imigrantes. O ambiente hostil leva ao isolamento social, dificuldades de integração, problemas de saúde mental (como ansiedade e depressão), além de comprometer o acesso a direitos básicos como moradia, emprego e segurança.
Imigrantes que passam por essas situações relatam que se sentem indesejados, desumanizados e constantemente na defensiva. E essa hostilidade cresce com o fortalecimento de discursos políticos e mediáticos que reforçam a ideia de que os imigrantes são um problema, em vez de reconhecê-los como parte fundamental da sociedade.
Portugal: Um País de Imigrantes Que Esquece Sua História?
Portugal é, historicamente, um país de migrantes. Durante décadas, portugueses buscaram novas oportunidades no Brasil, na França, na Alemanha e em diversos outros países. Muitos enfrentaram desafios semelhantes aos que os imigrantes enfrentam agora em terras lusitanas. O que mudou para que, hoje, uma parte significativa da população portuguesa rejeite aqueles que vêm buscar uma vida melhor?
A resposta está na normalização da xenofobia e do racismo estrutural, impulsionada por uma crise econômica que gerou um sentimento de insegurança entre os cidadãos portugueses. A narrativa de que os imigrantes “roubam empregos” ou “sobrecarregam os serviços públicos” é constantemente reforçada, ignorando que muitos desses imigrantes ocupam empregos que os portugueses não querem, contribuem para a economia e pagam impostos.
Além disso, há um problema maior: o racismo estrutural e o legado colonial português. Muitos dos imigrantes afetados são negros, afrodescendentes e de países historicamente explorados por Portugal. O preconceito não é apenas uma questão de nacionalidade, mas também de raça.
O Que Deve Ser Feito?
A pesquisa aponta que a solução passa por educação e políticas públicas efetivas. Algumas ações essenciais incluem:
• Criminalização eficaz do discurso de ódio: garantir que ataques xenofóbicos não fiquem impunes.
• Educação antirracista e multicultural nas escolas: para desconstruir estereótipos desde a infância.
• Campanhas de sensibilização: mostrar o impacto do discurso de ódio e promover a valorização da diversidade.
• Fortalecimento das instituições de apoio ao imigrante: garantir acesso digno a serviços essenciais e suporte legal contra discriminação.
Mas, acima de tudo, é preciso mudar a mentalidade coletiva. A presença de imigrantes em Portugal não é um problema – é uma riqueza. A diversidade fortalece a cultura, impulsiona a economia e traz inovação. Combater o discurso de ódio contra imigrantes não é apenas uma questão de direitos humanos – é um passo essencial para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Conclusão: De Que Lado da História Queremos Estar?
Estamos em um momento decisivo. A ascensão do discurso de ódio contra imigrantes em Portugal é um reflexo de problemas mais profundos que precisam ser encarados de frente. O silêncio e a conivência apenas perpetuam a exclusão e a desigualdade.
É hora de decidir de que lado da história queremos estar: ao lado da intolerância e do preconceito ou ao lado da justiça e da humanidade? Que cada um reflita sobre o país e o mundo que deseja construir.
DANIYYEL DE JESUS