Cresci cercado por pessoas que se pareciam comigo, ou pelo menos era o que eu pensava. No meu ambiente familiar, predominavam os mulatos, pessoas negras de pele mais clara que a minha. Mas foi dentro desse espaço, entre aqueles que deveriam ser os meus, que aprendi cedo o peso da rejeição.
As palavras vinham afiadas como lâminas: “preto de merda”, “cabelo duro”, “narigudo ”. Cada insulto, cada riso de escárnio, cada olhar de nojo era como uma marca invisível cravada na minha pele. E não foram só palavras. Já fui abusado sexualmente (durante anos, dentro de casa). Já cuspiram em mim. Já me empurraram contra muros. Já fui espancado até perder os sentidos porque um mulato, um preto mais claro do que eu, sentia-se superior. A cor da pele, uma mera variação de melanina, transformava-se numa hierarquia cruel dentro da própria comunidade (tudo isto aconteceu entre os meus 5 aos 10anos).
Foi assim que aprendi a odiar o espelho.
Durante anos, o reflexo devolvia-me um rosto que eu não conseguia aceitar. O cabelo crespo parecia um erro. O nariz largo, um defeito. Os olhos grandes, um estigma. O problema não era eu, mas tudo ao meu redor dizia o contrário. Vivia à margem, tentando entender por que a minha existência causava tanto incômodo até mesmo entre os meus.
O tempo passou, mas as feridas ficaram. Carreguei comigo essa dor para onde quer que fosse. Quando cheguei a Portugal, pensava que talvez ali encontrasse uma trégua, um novo começo. Mas foi um engano.
Portugal não me acolheu, apenas reativou os meus traumas. O racismo aqui tinha um novo rosto, mais sofisticado, mais institucional, mas igualmente cruel. Os olhares de desconfiança, os seguranças a seguir-me em lojas, as portas que se fechavam antes mesmo de eu bater. E, acima de tudo, os gatilhos. Todos os abusos do passado despertaram como demónios adormecidos. Era como se o menino ferido que eu tentava deixar para trás gritasse dentro de mim, lembrando-me de tudo o que eu tinha sofrido.
Mas desta vez, algo foi diferente.
Eu já não era aquele menino indefeso, incapaz de responder, de lutar. Portugal forçou-me a olhar de frente para os meus demónios, um por um. Eu os encarei, os questionei, os expulsei. Demorou, doeu, mas, finalmente, aprendi a me ver com outros olhos. Os traços que eu aprendi a odiar tornaram-se minha força. O cabelo a minha coroa. O nariz que eu tentava esconder passou a ser símbolo de orgulho.
Aceitar-me como negro foi um processo profundo e transformador. Durante anos, tentei negar partes de mim, acreditando que os traços da minha negritude eram um peso, algo que me tornava menos digno. Mas a verdadeira liberdade veio quando entendi que a minha identidade não era um fardo, e sim uma força. O problema nunca esteve na cor da minha pele, mas na forma como o mundo insiste em nos diminuir.
Ao me reconhecer como negro, abracei as minhas raízes e a história do meu povo. Passei a ver-me como um ser humano digno de viver, de ocupar espaços, de ser respeitado e honrado. E no meio dessa jornada, algo me deu ainda mais esperança: ver os nossos a ascender, a ocupar lugares que sempre nos foram negados.
Hoje, vemos juízes negros, empresários negros, cientistas, artistas, líderes que rompem barreiras e provam que pertencemos a qualquer lugar que queiramos estar. Cada vitória de um negro é uma rachadura no sistema que tentou nos apagar por séculos. Cada um que se ergue leva consigo muitos outros.
Isso enche-me de orgulho e me faz acreditar que, apesar das batalhas, estamos a mudar a narrativa. Estamos a reescrever a nossa história com as nossas próprias mãos. Ser negro não é um erro, nunca foi. É um símbolo de resistência, de poder e de grandeza. E eu existo sem pedir permissão.
Hoje, quando olho no espelho, já não vejo um menino quebrado. Vejo um homem que sobreviveu. Vejo um PRETO LIVRE.
DANIYYEL DE JESUS