DANIYYEL DE JESUS

Um jovem apaixonado por Jesus Adorador e Activista de Saúde Mental.

2 Coríntios 5:17
Menu
Menu
Sobre minBlog
Redes sociais

MAIS

Sobre mim

Pele Retinta, Oportunidade Extinta – O Desafio de Pessoas Pretas Retintas no Mercado de Trabalho em Portugal

Houve um dia em que fui a uma entrevista de emprego. Oportunidade rara, difícil de conseguir, mas finalmente lá estava eu, sentado diante de cinco entrevistadores. Todos brancos. Era uma vaga que se alinhava perfeitamente com as minhas qualificações. Fiz tudo certo. Falei com segurança, mostrei as minhas experiências, expus os meus conhecimentos. Eles gostaram. Disseram-me que o meu currículo era impressionante. Mas, no final, quando saí daquela sala, soube que não seria contratado.

Não porque me faltava competência. Não porque eu não estivesse preparado. Mas porque eu sou preto. Preto retinto.

Quem nunca viveu isso pode dizer que é coisa da minha cabeça. Mas quem já sentiu na pele, quem já experimentou o peso desse olhar atravessado, sabe que não é delírio. O racismo não se explica apenas com palavras, ele se sente na alma, se percebe nos gestos, na maneira como hesitam antes de apertar a nossa mão, na forma como nos analisam como se fôssemos um corpo estranho naquele ambiente.

Em Portugal, o mercado de trabalho continua a ser um reflexo da sociedade que, muitas vezes, finge que não vê o que está diante dos seus olhos. O colorismo é um dos maiores filtros invisíveis nos processos de recrutamento. Pessoas negras de pele mais clara, em algumas situações, conseguem furar algumas barreiras. Mas para os pretos retintos, a história é diferente.

Se olharmos para quem ocupa cargos de relações públicas, atendimento ao cliente, gestão, liderança, representação empresarial, veremos um padrão. Há poucos ou quase nenhum negro retinto nesses lugares. Mas se olharmos para as funções de segurança, limpeza e trabalho doméstico, a nossa presença é esmagadora. É como se já estivesse pré-determinado onde devemos estar. Como se o nosso lugar fosse apenas onde não precisamos interagir de igual para igual com os outros.

O problema não é a profissão em si, mas a falta de escolha. O problema é que as portas se fecham antes mesmo que possamos provar do que somos capazes. O problema é que, não importa o quanto estudemos, o quanto nos esforcemos, o quanto tentemos, o sistema já decidiu que não somos a imagem que eles querem para representar as suas empresas.

E o pior é que, quando falamos sobre isso, somos acusados de vitimismo. Dizem-nos que “basta se esforçar”, que “o mercado é competitivo para todos”. Mas sabemos que não é verdade. O esforço não pesa igual para todos. Se uma pessoa branca precisa de dez passos para chegar ao seu destino, um preto retinto precisa de cinquenta. E mesmo assim, pode nunca chegar.

O racismo estrutural não se manifesta apenas com ofensas diretas ou discriminação explícita. Ele está nas escolhas silenciosas dos recrutadores. No fato de que, mesmo sendo o melhor candidato, você nunca recebe a chamada de volta. No incômodo não dito quando você entra na sala. No fato de que, ao invés de enxergarem um profissional competente, enxergam apenas um corpo negro.

É triste. É revoltante. E é real.

E enquanto isso continuar, enquanto as oportunidades forem distribuídas com base na cor da pele, o progresso será apenas um privilégio para alguns. Porque o racismo não é apenas um problema do passado. Ele está vivo, pulsando nos processos seletivos, nos corredores das empresas, nos sorrisos falsos de quem já decidiu que não nos quer ali.

E a pergunta que fica é: ATÉ QUANDO?

DANIYYEL DE JESUS

5 de Fevereiro de 2025
linkedin facebook pinterest youtube rss twitter instagram facebook-blank rss-blank linkedin-blank pinterest youtube twitter instagram