No dia 19 de janeiro de 2020, um episódio revoltante aconteceu no Casal de São Brás, Amadora. Cláudia Simões, uma mulher negra de 42 anos, foi brutalmente agredida por um agente da PSP após um desentendimento envolvendo o passe de transporte da sua filha de 8 anos. Um caso simples, que poderia ter sido resolvido com diálogo e bom senso, rapidamente escalou para um ato de violência desproporcional, deixando marcas físicas e emocionais na vítima e levantando sérias questões sobre o racismo estrutural nas forças de segurança em Portugal.
O Que Aconteceu?
Cláudia estava a regressar a casa com a filha quando o motorista do autocarro questionou a menina sobre o seu passe. Como a criança não tinha o título de transporte consigo naquele momento, a mãe tentou interceder, explicando que a menina possuía o passe, mas simplesmente não o levava naquele dia.
O motorista, em vez de lidar com a situação de forma razoável, decidiu chamar a polícia. Quando o agente Carlos Canha chegou, o que deveria ser apenas uma verificação de rotina transformou-se num ato de brutalidade policial. Testemunhas afirmam que Cláudia foi abordada de forma agressiva e, ao questionar o comportamento do agente, foi empurrada e imobilizada à força.
“Aquilo foi chocante. Ele jogou-a ao chão como se estivesse a prender um criminoso perigoso. Ela gritava que não estava a resistir, mas ele continuava a agredi-la”, relatou uma testemunha que assistiu à cena.
Cláudia foi levada para a esquadra, onde sofreu ainda mais agressões. Fotos tiradas após a sua libertação mostram o seu rosto inchado, hematomas e ferimentos visíveis. No hospital, os médicos confirmaram que ela sofreu várias lesões devido ao uso excessivo da força.
A Justiça Falha Novamente
O caso seguiu para tribunal, e, como já era esperado, o desfecho revelou-se um reflexo da impunidade habitual nestes casos. Cláudia Simões foi condenada a oito meses de prisão com pena suspensa pelo crime de ofensa à integridade física qualificada, devido a uma alegada mordida no agente.
Já o polícia, Carlos Canha, que a agrediu violentamente, foi absolvido das acusações relacionadas com Cláudia, mas acabou por ser condenado a três anos de prisão com pena suspensa por outros crimes cometidos contra dois cidadãos em diferentes ocasiões. Ou seja, mesmo com provas claras da violência policial, a vítima negra foi criminalizada, enquanto o agente saiu praticamente ileso.
O Padrão de Racismo e o Uso da Força Desnecessária
Casos como o de Cláudia Simões são um exemplo gritante de como o racismo opera dentro das instituições portuguesas. A polícia, que deveria servir e proteger, age com desproporcionalidade contra cidadãos negros, principalmente quando se trata de conflitos menores, facilmente resolvíveis pelo diálogo.
Se Cláudia fosse uma mulher branca de classe média, será que teria sido tratada da mesma forma? Será que um simples desentendimento sobre um passe de transporte resultaria em uma detenção brutal? O que impede a polícia de adotar um comportamento razoável quando lida com cidadãos negros?
Essas perguntas são incômodas, mas essenciais para entender por que a violência policial contra negros é normalizada em Portugal. O sistema de justiça, que deveria atuar de forma imparcial, reforça essa desigualdade ao proteger os agressores e punir as vítimas.
Reflexão Final: Até Quando Vamos Aceitar?
O caso Cláudia Simões não é isolado. Ele se insere num contexto maior de violência policial e racismo institucional em Portugal. A falta de responsabilização de agentes que abusam do poder perpetua um ciclo de opressão contra as comunidades negras e imigrantes.
A solução passa por reformas estruturais na polícia, maior transparência nos processos judiciais e uma mudança cultural que elimine a ideia de que certas vidas valem menos. Enquanto a justiça continuar a falhar, enquanto cidadãos negros forem tratados como criminosos apenas por existirem, Portugal continuará a ser um país onde a cor da pele define quem merece respeito e quem pode ser descartado pelo sistema.
DANIYYEL DE JESUS