O futebol sempre foi visto como um espaço de união, paixão e diversidade. No entanto, episódios recentes mostram que, para muitos atletas racializados, o desporto continua a ser um campo de batalha contra o racismo. As declarações de Vinícius Jr., jogador brasileiro do Real Madrid, reacenderam um debate que vai além dos estádios: o racismo estrutural dentro do desporto e a resistência de muitos em admitir e combater o problema.
O Caso Vinícius Jr. e a Hipocrisia das Instituições
Vinícius Jr. tornou-se um dos alvos mais frequentes de ataques racistas na Espanha. Cânticos, insultos e gestos discriminatórios foram ignorados por árbitros, dirigentes e até mesmo pelo sistema judiciário espanhol, que demorou a agir. Apesar da indignação global, as respostas das autoridades foram marcadas por uma postura defensiva e, muitas vezes, negacionista.
A Liga Espanhola (La Liga) e a Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) demonstraram um padrão de omissão que reflete a hipocrisia institucional: enquanto fazem campanhas publicitárias contra o racismo, falham repetidamente na punição de torcedores e clubes envolvidos nesses atos. A resistência em enfrentar o problema de frente revela uma desconexão entre o discurso oficial e a realidade vivida pelos atletas racializados.
Racismo no Desporto: Um Reflexo da Sociedade
Os ataques a Vinícius Jr. não são incidentes isolados, mas sintomas de um problema mais profundo. O desporto apenas amplifica o que acontece no dia a dia: sociedades que insistem em negar a existência do racismo enquanto normalizam a exclusão e a violência contra pessoas negras.
O caso de Vinícius Jr. levanta uma questão essencial: por que ainda existe tanta resistência em reconhecer e combater o racismo no desporto e na sociedade? A resposta está na manutenção de privilégios. Admitir que o racismo é um problema estrutural significa aceitar que mudanças reais precisam acontecer – e muitos não estão dispostos a abrir mão do status quo.
A Resistência à Mudança: Negação, Silêncio e Conivência
A resistência ao combate ao racismo se manifesta de várias formas:
1. Negação – Muitos ainda tratam o racismo como algo pontual, ignorando sua dimensão estrutural. Quando um jogador denuncia, a resposta padrão é minimizar a situação, chamando-a de “caso isolado” ou de “exagero”.
2. Silêncio – Clubes, federações e patrocinadores evitam confrontar o problema diretamente, temendo impactos financeiros ou políticos. A falta de apoio institucional contribui para que episódios racistas continuem a ocorrer.
3. Conivência – Em alguns casos, há uma aceitação implícita do racismo, especialmente quando atletas negros demonstram resistência. Quando Vinícius Jr. reagiu aos insultos, parte da mídia e até alguns ex-jogadores o criticaram por “provocar” os adversários. Ou seja, o problema não seria o racismo, mas sim a reação de quem o sofre.
Conclusão: Um Desafio Que Vai Além do Futebol
O caso Vinícius Jr. escancarou a necessidade urgente de um enfrentamento sério ao racismo no desporto e na sociedade. Não basta campanhas publicitárias ou declarações vazias de federações. São necessárias punições severas, mudanças estruturais e, principalmente, uma vontade genuína de erradicar a discriminação racial.
O desporto tem o poder de transformar mentalidades e sociedades. Mas, para isso, é preciso que as instituições deixem de ser coniventes e assumam o compromisso real de mudança. Enquanto isso não acontecer, o racismo continuará a ser uma mancha no futebol – e no mundo.
DANIYYEL DE JESUS