DANIYYEL DE JESUS

Um jovem apaixonado por Jesus Adorador e Activista de Saúde Mental.

2 Coríntios 5:17
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“Ser afro-americano é ser africano sem nenhuma memória e americano sem nenhum privilégio.”

(James Baldwin)

A frase de James Baldwin é uma sentença carregada de dor, mas também de uma verdade inegável. Ela sintetiza a condição paradoxal do afro-americano e, por extensão, de muitos negros na diáspora: arrancados de sua terra natal, privados de sua história e, ao mesmo tempo, negados como cidadãos plenos nos países onde nasceram. Essa realidade não é apenas um resquício do passado, mas uma cicatriz aberta que continua a moldar as vidas de milhões de pessoas.

O apagamento da memória africana: um projeto intencional

A escravidão transatlântica não foi apenas uma exploração econômica brutal; foi um sistema minuciosamente planejado para desumanizar e desarraigar os negros. A violência não estava apenas nos chicotes, mas na erradicação sistemática da identidade africana.

Ao chegarem às Américas, os africanos eram despidos de tudo o que os conectava à sua terra: seus nomes eram trocados por nomes europeus, suas línguas eram proibidas, suas religiões eram demonizadas e suas culturas reprimidas. Não era suficiente escravizar os corpos; era necessário também escravizar as mentes, garantindo que os africanos e seus descendentes nunca pudessem reivindicar sua própria história.

Esse apagamento não acabou com o fim da escravidão. Ele se perpetuou na forma da narrativa histórica distorcida, que ensinou gerações de afro-americanos que sua história começou com a escravidão e que nada antes disso importava. Ele também se manifestou na forma de exclusão dos negros das instituições de poder, da academia e da produção do conhecimento. O resultado disso é um vazio geracional que ecoa até hoje: enquanto descendentes de europeus nos Estados Unidos conseguem traçar suas origens até aldeias específicas na Itália, Alemanha ou Irlanda, muitos afro-americanos sequer sabem de qual país seus ancestrais vieram.

Esse desenraizamento teve consequências profundas. Como se constrói uma identidade quando se tem apenas fragmentos de um passado negado? Como se sente pertencimento a um país que, historicamente, nega a sua humanidade?

A cidadania americana: um privilégio negado

Se a negritude nos EUA foi construída sobre um apagamento histórico, ela também foi marcada por uma constante negação da cidadania plena. O “americanismo” nunca foi verdadeiramente acessível aos negros, mesmo depois da abolição da escravidão.

A 13ª Emenda da Constituição dos EUA, que supostamente aboliu a escravidão, traz uma exceção perigosa: ela permite o trabalho forçado como punição para crimes. Essa brecha legal foi imediatamente explorada pelo sistema carcerário, que transformou prisões em verdadeiras plantações modernas, onde negros eram presos por acusações frágeis e forçados a trabalhar gratuitamente. Essa estratégia garantiu que, mesmo “livres”, os negros permanecessem economicamente exploráveis e politicamente marginalizados.

O século XX trouxe a segregação racial, o racismo estrutural e a brutalidade policial, provando que o acesso à “cidadania americana” sempre foi uma ilusão para os negros. Mesmo após a conquista dos direitos civis nos anos 1960, a disparidade econômica, educacional e social continuou. A presença negra na política, no mercado de trabalho e na mídia ainda é minoritária e, quando ocorre, muitas vezes vem acompanhada de uma vigilância intensa e de tentativas de silenciamento.

O encarceramento em massa, a brutalidade policial e a desigualdade de oportunidades são apenas formas modernas de um mesmo problema: o privilégio de ser americano nunca foi estendido aos afro-americanos.

A luta por identidade e pertencimento

Diante dessa exclusão dupla – sem memória africana e sem privilégio americano – os afro-americanos precisaram construir sua identidade a partir da resistência. Movimentos como o Black is Beautiful, o Pan-Africanismo, e mais recentemente, o Black Lives Matter, são formas de retomar o que foi roubado: a história, a dignidade e a voz.

Muitos afro-americanos tentaram resgatar suas raízes africanas, seja através da arte, da música ou da espiritualidade. A adoção de nomes africanos, o interesse crescente pela genealogia e as conexões feitas com países do continente são tentativas de reconstruir a ponte que a escravidão tentou destruir. No entanto, essa reconexão não é fácil. Para muitos, a África é um conceito distante, romantizado e desconhecido. E para muitos africanos, os afro-americanos são vistos como “estrangeiros”, fruto da distância imposta pelo colonialismo.

Ao mesmo tempo, a luta contra o racismo dentro dos EUA continua. O Black Lives Matter expôs ao mundo que a violência contra os negros não é um resquício do passado, mas uma realidade presente. A luta por equidade e reparação histórica não é um pedido de favor, mas um direito que tem sido sistematicamente negado.

O significado da frase de James Baldwin hoje

A frase de Baldwin não é apenas uma constatação do passado, mas um alerta para o presente. Ainda hoje, a negritude na diáspora enfrenta esse duplo apagamento: a desconexão com o passado e a rejeição no presente.

Ser afro-americano – e, de forma mais ampla, ser negro na diáspora – significa lutar contra essa fragmentação da identidade todos os dias. Significa carregar o peso de um passado que não pode ser plenamente acessado e, ao mesmo tempo, enfrentar um presente que nega oportunidades e direitos básicos.

A questão central dessa reflexão não é apenas apontar as injustiças, mas também perguntar: como romper esse ciclo? Como reescrever a história que tentaram apagar?

A resposta talvez esteja na continuidade da resistência. Na afirmação do orgulho negro. No resgate das narrativas esquecidas. Na recusa em aceitar um sistema que nos vê como estrangeiros em nossa própria pele.

Se Baldwin nos deixou essa frase, é porque sabia que o futuro dependeria da nossa capacidade de reivindicar aquilo que nos foi negado. E essa luta, ainda hoje, está longe de acabar.

DANIYYEL DE JESUS

20 de Março de 2025
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