O racismo não ataca apenas a cor da pele. Ele mede teus traços, analisa teu rosto, avalia teu cabelo. Quanto mais negritude carregas em tua aparência, mais discriminado és. O nariz largo, os lábios grossos, os olhos expressivos e, principalmente, o cabelo crespo (quanto mais fina a curvatura, pior é) são marcadores de identidade, mas também os primeiros alvos do preconceito.
Desde a infância, muitas pessoas pretas aprendem que seus traços naturais são “excessivos” ou “fora do padrão”. O nariz grande vira piada, os lábios grossos são hipersexualizados, os olhos marcantes são alvo de estereótipos e o cabelo crespo sofre tentativas constantes de alisamento, como se precisasse ser domado para ser aceito. Quem tem feições mais sutis escapa parcialmente dessa discriminação, mas quem carrega traços africanos mais evidentes sente na pele a pressão para modificar sua imagem e “se encaixar”.
A rejeição a esses traços é visível em todos os espaços. No mercado de trabalho, um rosto de feições finas é mais bem recebido do que um com traços africanos marcantes. Em escolas, crianças com nariz largo e cabelo crespo são mais alvo de bullying. Em redes sociais, influenciadores negros com traços mais europeizados ganham mais seguidores e são mais celebrados do que aqueles que carregam a estética africana pura.
Mas essa rejeição não é acidental — ela foi ensinada, reforçada e enraizada por séculos. Durante a colonização e a escravidão, os traços africanos foram desumanizados e inferiorizados para justificar a exploração dos negros. A negritude, em sua forma mais autêntica, foi rotulada como selvagem, enquanto os padrões europeus foram estabelecidos como modelo de beleza e aceitação. E até hoje, essa lógica continua a afetar a forma como os traços negros são percebidos.
A boa notícia é que esse cenário está a mudar. O orgulho negro tem crescido, e cada vez mais pessoas estão a resgatar e valorizar sua estética original. Narizes largos não precisam ser “corrigidos”, lábios grossos não são um problema, olhos expressivos são lindos e o cabelo crespo não precisa ser alisado para ser respeitado. A verdadeira mudança acontece quando entendemos que a beleza negra não precisa de permissão para existir e que nossos traços não são um erro, mas uma herança de força e ancestralidade.
O racismo quer te convencer de que teu nariz é grande demais, que teus lábios são exagerados, que teu cabelo é “difícil”. Mas a verdade é que tudo isso faz parte da tua identidade, e não há nada que precise ser modificado para agradar a ninguém. Quanto mais te aceitares, mais desarmas um sistema que sempre quis te apagar.
Teus traços contam uma história. E essa história merece ser contada com orgulho.
DANIYYEL DE JESUS